De Orestes Barbosa mesmo antes do ensaio de Lucas Assis eu já conhecia assim como todos o Chão de Estrelas: “A porta do barraco era sem trinco/Mas a lua furando o nosso zinco/Salpicava de estrelas nosso chão”. A leitura do livro me revelou que um dos mais gostosos sambas de Noel é também de Orestes, o Positivismo.
O próprio Orestes com pouca modéstia escreveu que Cada linha desse samba é uma enciclopédia. O ensaísta Lucas discorda e eu concordo.
A verdade, meu amor, mora num poço
É Pilatos lá na Bíblia quem nos diz
E também faleceu por ter pescoço
O infeliz autor da guilhotina de Paris
Ou:
O amor vem por princípio, a ordem por base
O progresso é que deve vir por fim
Desprezaste esta lei de Auguste Comte
E foste ser feliz longe de mim
Cada linha pode ser uma enciclopédia mas desta eu só tomarei um verbete, o ensino nos anos 1930. Era um ensino elitizado, sem dúvida. Umas poucas escolas estatais de ensino médio, conhecidas como liceus, e umas faculdades isoladas, e a grande maioria cavava o chão para plantar macaxeira e sequer aprendia a ler. Os poucos que tinham escolas tinham um ensino com um forte conteúdo humanístico, lê-se nos versos da dupla de compositores acima, nenhum dos dois com nível superior.
Não há que romantizar o passado. Era um ensino para poucos. Mas quantos compositores populares hoje escreveriam sobre Revolução Francesa, correntes filosóficas, histórias bíblicas e o conceito de Verdade, tudo em meia dúzia de versos.
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