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terça-feira, 22 de abril de 2025

UMA COMÉDIA COM VERDADE

 WILDE, Oscar. ¨An Ideal Husband¨. In: The Importance of being Earnest and other plays. Oxford: Oxford  University Press, 2008. 368p. p159-245.

Pela primeira vez fui à mesma peça na mesma montagem por três vezes seguidas. Quem conseguiu essa proeza foi o talento de Edwin Luisi e Herson Capri. A dupla de atores brasileiros encenou “Um Marido Ideal” em 2006 num Teatro do Leblon. Nunca entendi por que essa montagem não se manteve pelos anos afora. Depois vi alguns filmes da mesma peça com atores de língua inglesa e devo dizer que os dois brasileiros são muito mais engraçados. Mas eles poucas gargalhadas conseguiriam arrancar, se não fosse o talento de Oscar Wilde.

Lady Chiltern adora o seu marido, o vice-ministro Robert. Ela admira como ele veio de baixo e fez fortuna, gosta de tudo o que ele é. O que ela não sabe é que seu Marido Ideal fez uma falcatrua para ganhar sua fortuna. Uma certa Madame Cheveley tem prova disso e agora chantageia Robert. Mias do que perder sua perder sua carreira política, Robert teme perder a admiração da esposa.

Poderia ser um drama até dos não muito bons se não fosse um personagem coadjuvante – esta é rara peça em que um personagem secundário sustenta tudo. Arhur, o Visconde Goring, nasceu rico e se ocupa o dia inteiro em não fazer nada. Segundo ele, ele nunca perde seu tempo a ficar a papear com as pessoas – elas é que perdem o delas.

Arthur consegue nos fazer simpatizar com um aristocrata ocioso. Leve, livre – isso é que todos gostariam de ser. E se mete a ajudar o amigo, o que mostra que tem algum caráter, afinal. Algum – se tivesse muito, faria algo de útil. Mas ele faz rir. Isso basta.


segunda-feira, 21 de abril de 2025

POR QUE NÃO LER UM CLÁSSICO

BALZAC, Honoré de. ¨La Femme de trente ans¨. In: La Comédie Humaine. Paris: Editions Louis Conard, 1949. 538p. p1-217.

Encontre esse volume em uma dessas deliciosas mesas de livros baratos em um sebo (bouquiniste) no Boulevard Saint-Michel. Carinho: quinze euros, e a maior parte custa só um. Acomodei-me em mesa no Café Saint Paul ao lado para repassar os livros comprados a dividir a mesa com um crepe e um cappuccino e a olhar os passantes. Senti-me na Paris do velho Honoré, embora esta não seja a Paris dele, demolida que foi uns vinte anos depois e substituída pela atual.

Na igualmente charmosa Praia do Meireles desta brava Fortaleza meti-me a ler e tive a impressão que nosso amigo Balzac estava muito lombrado do absinto quando escreveu A Mulher dos Trinta Anos, se bem que a sua droga fosse o café. Começa com uma jovem cheia de vida casando com um homem medíocre e ficando presa em casamento tolo. Início bem balzaquiano. Surge um belo médico inglês – tudo bem, continua na linha.

De uma hora para outra acho que o excesso de cafeína na balzaquiana cabeça fez efeito: entra um amente, a trágica morte de uma criança por afogamento, e esses acontecimentos gravíssimos se sucedem quase que sem consequência nenhuma. Cheguei a pensar se não era uma coletânea de contos, dada a desconexão entre um capítulo e outro. Mas piora quando entram piratas na história. Por favor, Barbanegra e papagaio no ombro, não dá – pensei. 

E fica a eterna questão: pode-se desgostar de um clássico? Que Balzac torne e resolva esse dilema para nós. Mas sem meter piratas na história, por favor.


domingo, 20 de abril de 2025

AS DES/GRAÇAS DA VIDA BURGUESA

FEYDEAU, Georges. ¨On Purge Bébé¨. In: La Dame de chez Maxim, On purge Bébé, Mais n´te promène donc toute nue !. Paris: Maxi-poche, 1995. 476p. p313-405. 

A Mulher recebe o amante em casa e nesse preciso momento aparece um jovem colega ator que vem discutir uma peça. Depois de algum constrangimento a mulher diz Não vamos transformar isso numa comédia de Feydeau! e pede para o amante sair do esconderijo: o amante é um padre, o mesmo que havia encomendado a ambos a encenação da Paixão de Cristo, com o jovem como Jesus e a Mulher como Madalena. Esse foi o filme canadense Jesus de Montreal, meu primeiro contato com Georges Feydeau.

A percorrer os bouquinistes (sebos) da Rive Gauche, a zona boêmia de Paris que tive meu segundo contato, esse proposital. Da pequena cena acima já sabia que havia um autor francês antigo que escrevia peças de assuntos considerados não muitos severos, como infidelidade, acasos e talvez piadas. E a percorrer as mesas de livros usados (em geral de um euro) encontrei um volume com três das peças desse autor que teve seu auge em princípios do século XX.

On Purge Bébé é uma peça curtinha sobre é um assunto bobo: os problemas estomacais de um garoto de família de classe média alta servem de pavio que detonam situações nonsense sobre problemas sérios. O pai tem um fábrica de penicos e quer vendê-los para o exército francês, e para isso convida um dos responsáveis pela licitação para jantar, só que o funcionário é um marido traído, o casal sabe disso e já falou do assunto em frente ao garoto chato. Dá para imaginar o resultado da baixaria, aliás das duas: da infidelidade e da corrupção. 

Que humanidade parecida.


sábado, 19 de abril de 2025

Positivamente Noel

 De Orestes Barbosa mesmo antes do ensaio de Lucas Assis eu já conhecia assim como todos o Chão de Estrelas: “A porta do barraco era sem trinco/Mas a lua furando o nosso zinco/Salpicava de estrelas nosso chão”. A leitura do livro me revelou que um dos mais gostosos sambas de Noel é também de Orestes, o Positivismo. 

O próprio Orestes com pouca modéstia escreveu que Cada linha desse samba é uma enciclopédia. O ensaísta Lucas discorda e eu concordo. 

A verdade, meu amor, mora num poço

É Pilatos lá na Bíblia quem nos diz

E também faleceu por ter pescoço

O infeliz autor da guilhotina de Paris


Ou:


O amor vem por princípio, a ordem por base

O progresso é que deve vir por fim

Desprezaste esta lei de Auguste Comte

E foste ser feliz longe de mim


Cada linha pode ser uma enciclopédia mas desta eu só tomarei um verbete, o ensino nos anos 1930. Era um ensino elitizado, sem dúvida. Umas poucas escolas estatais de ensino médio, conhecidas como liceus, e umas faculdades isoladas, e a grande maioria cavava o chão para plantar macaxeira e sequer aprendia a ler. Os poucos que tinham escolas tinham um ensino com um forte conteúdo humanístico, lê-se nos versos da dupla de compositores acima, nenhum dos dois com nível superior.

Não há que romantizar o passado. Era um ensino para poucos. Mas quantos compositores populares hoje escreveriam sobre Revolução Francesa, correntes filosóficas, histórias bíblicas e o conceito de Verdade, tudo em meia dúzia de versos.


sexta-feira, 18 de abril de 2025

Senhorita Cavalo-de-Pau

 ASSIS, Lucas. Delírios Nervosos: o Rio de Janeiro de Orestes Barbosa. Fortaleza, CE: Plebeu Gabinete de Leitora, 2025. 398p.

Uma Alice Cavalo-de-Pau surge no ensaio do professor Lucas Assis sobre o Rio da Belle Époque. 

Penso... Como será que os pretendentes ao Amor Eterno de Miss Cavalo-de-Pau a ela se dirigiam?? Pois supõe-se que fosse solteira, livre e desimpedida para os prélios do Amor, como podemos deduzir dos lugares que costumava frequentar, a Lapa e seus botecos boêmios e liberais. E hoje sempre se imagina que os antigos tinham um linguajar elevado. Será que um jovem, ao vê-la em uma dança, dizia: 

- Ó feérica e obcecante senhorita Cavalo-de-Pau, não me julgueis papalvo ou esdrúxulo de, em meio a tantos aldrabões e bolicheiros aqui presentes, dirigir-vos essas candentes e arrebatadas palavras em louvor a vossa aparatosa e tonitruante beleza, que excede em viço e primazia a todas às demais filhas de Eva. A vós me dirijo, com o galarim do estilo e puro néctar das frases, não para igualar-me a biltres que se esmeram em seduções desenfreadas em contubérnios malévolos, mas para oferecer-vos o plecto puro de minhas fidedignas intenções!

O autor não diz qual seria a resposta da srta. Cavalo-de-Pau a semelhante cantada. Apenas que, entre seus admiradores, contava-se um cavalheiro que assinava em certo jornal chamado O Rio Nu as colunas Carteira de um Peru e Na Zona, tudo sob o pseudônimo Língua de Prata, ao qual decididamente não falta originalidade.


quinta-feira, 17 de abril de 2025

Dois encontros com o mesmo autor

 THOMAS, Louis C. Los escritos permanecen. Barcelona/ESP: Plaza & James editores, 1985. 398p. Tradução Federico Gorbea.

THOMAS, Louis C. Une Femme de trop. Paris/FR: Éditions Denoëll, 1995. 238p.

Não poderia ter sido mais casual meu primeiro encontro com Louis C. Thomas. Estava eu rapaz meio-mochileiro a perambular por Montevidéu nas férias de 1990 e em uma livraria me ofereceram um livro dele como brinde por uma outra compra. Comecei a ler  Os escritos permanecem sem muito compromisso. Um escritor policial recebe os originais de um livro no qual o autor aparentemente descreve quem viria a matá-lo. Escritor profissional porém detetive amador, mete-se a investigar.  Trama do tipo cebola, em que cada camada descascada dá acesso a outras, o livrinho me chamou a atenção para esse autor francês Louis C. Thomas.

Meu segundo encontro não poderia ter sido mais proposital. Estava eu senhor aposentado em Paris e um dos meus alvos nas livrarias da zona boêmia a Rive Gauche era exatamente esse autor. Vasculhei a Gallimard, a Gibert Jeune e nada. Até pedi ajuda aos vendedores. Ninguém o conhecia. Até que em um bouquiniste (sebo) do Bpulevard Saint-Michel deparei com esse Une Femme de trop (uma mulher a mais). Mergulhei na história: um homem inteligente e pobre é dominado por sua esposa egoísta e rica, e se torna amante da bela criada. A esposa tem acidente e perde a memória. E há dúvidas se foi mesmo um acidente.

Louis C. Thomas não é bem um autor policial. Esses dois livros se inclinam mais para o drama com a presença de crimes. Mereceu o antigo sucesso. Não sei se merece o atual esquecimento. Mas Sic transit Gloria Mundi, assim diziam os antigos. Tudo passa.


quarta-feira, 16 de abril de 2025

O célebre escritor desconhecido

 ASSIS, Lucas. Delírios Nervosos: o Rio de Janeiro de Orestes Barbosa. Fortaleza, CE: Plebeu Gabinete de Leitora, 2025. 398p.

Nunca tinha ouvido falar de Benjamin Costallat até chegar à página 75 do ensaio do professor Lucas Assis Delírios Nervosos que nem é sobre ele, mas sobre o Rio da Belle Époque, a pequena Paris de então, centrada na figura de Orestes Barbosa, outro da época. 

Benjamin Costallat era um garoto precoce, vá. Com menos de trinta anos estudara em Paris e conhecia as manhas da imprensa, jornalista precocemente veterano que era. Sabia aparecer, sabia promover e utilizou tudo isso em seu romance Mademoiselle Cinema,  de 1923. 

Com fama de ser um livro Sexo, drogas e rock´n´roll antes-do-tempo , nem o é tanto – ou é, mas para os padrões da época. A protagonista Rosalina beija, flerta e tem cenas mais adultas com vários parceiros – que são pudicamente substituídas por pontos. O nome Cinema se refere ao modismo do tempo, o Cinema. Nada muito pesado – mas o suficiente para a católica Liga da Moralidade invadir livrarias e tomar o livro na marra.

Apesar do escândalo e talvez por causa dele Mademoiselle Cinema vendeu 60 mil exemplares em cinco edições, em um Brasil virtualmente analfabeto que não chegava a 30 milhões de habitantes. Compare-se com os 800 da primeira edição de Macunaíma. 

Tanto sucesso e escândalo para findar em umas teses esparsas, alguns curtas no Youtube e uns pdfs que ninguém consegue abrir. Sic transit Gloria mundi – assim passa a glória do mundo, diziam os antigos. Mas os antigos, assim como os best-sellers de antigamente, ninguém se lembra deles.