COSMO, Nicola di, e MAAS, Michael (org.). Impérios e trocas na Antiguidade Tardia Eurasiática. Campinas; editora da UNICAMP, 2023. 694p. Tradução Felipe Vale da Silva.
Eu, Marcus Petrus Sabbatius Flaminius, dito o Etíope, em outra missão sem sentido conduzi sete girafas das savanas da África para a Corte de Constantinopla [muitos anos depois outra missão me faria com outros nomes conduzir camelos para o Ceará]. Em uma de minhas vidas [já não lembro qual] um crime [ou pecado, como queiram] me condenou a retornar eternamente até o fim dos Tempos – e não haveria Fim.
Eu nada fazia de especial - às vezes vagabundo, às vezes pastor de ovelhas no Reino de Dongola quando os romanos vieram – e na sua ignorância nada sabiam de girafas. Sabiam no entanto de crueldade e bajulação – as girafas eram um presente ao seu Imperador Justino II, o mesmo que queimara as cabanas das Nove Aldeias – e de novecentas mais. Chamaram-me O Etíope, o que nunca fui, e deram-me um nome romano e por toda a viagem sonhei justiçar o homem cruel que nos obrigava a tanta estupidez.
Não falarei da longa caravana pelo deserto, dos açoites em mim, nos outros e nas girafas – a quem tentavam dar pão de trigo e outros venenos. E nem da não menos longa viagem pelo mar, com os habitantes da costa a contemplar às girafas como aparições do Deus em que acreditam.
No meio da Corte na Capital um dos muitos cobertos de pérolas, sedas e burrice se aproximou e um camelo o mordeu, e o homem levou o dedo sanguinolento à boca. Senti a força da minha mão no punhal esmorecer. Não matei aquele tolo. E então entendi que aquele fora o crime que me faria vagar pelo mundo a fazer outras tolices.
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